Do fracasso silencioso de grandes ideias à consolidação de impérios, a capacidade de liderança estabelece até onde pessoas e organizações podem chegar

Por: Kennedy Gomes de Alecrim / Redação

A teoria de John C. Maxwell, apresentada em As 21 irrefutáveis leis da liderança (2007), inicia com uma afirmação provocadora: a liderança funciona como um teto que limita ou expande a eficácia de uma pessoa ou organização. Essa primeira lei, chamada de lei do limite, é ilustrada pelo caso emblemático dos irmãos McDonald. Embora Dick e Maurice tenham criado um modelo inovador de restaurante rápido na Califórnia, sua incapacidade de liderar para além da gestão eficiente os impediu de transformar a ideia em um império global. O potencial da marca só se concretizou quando Ray Kroc, com visão e liderança ampliada, assumiu o controle, expandindo o McDonald’s para dezenas de milhares de unidades em mais de uma centena de países.

A história mostra que o talento técnico e a disciplina operacional não são suficientes quando não estão acompanhados de liderança. Maxwell (2007) sustenta que a capacidade de liderar determina a eficácia e o impacto de qualquer empreendimento. Esse argumento se conecta a casos contemporâneos, como o da Apple nos anos 1970. Steve Wozniak era o gênio técnico, mas foi Steve Jobs, com seu limite de liderança mais elevado, quem conseguiu transformar a empresa em uma das organizações mais valiosas do mundo. O contraste entre Wozniak e Jobs reforça a tese de que grandes ideias só prosperam quando encontram líderes capazes de expandi-las.

Esse princípio não se restringe ao mundo corporativo. Reportagens sobre cooperativas agrícolas brasileiras mostram situações semelhantes, nas quais a ausência de líderes preparados compromete a eficácia de empreendimentos coletivos. A Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB) tem alertado que a falta de formação em liderança dentro das cooperativas resulta em má gestão de recursos, conflitos internos e dificuldade de adaptação a mudanças do mercado (OCB, 2022). Quando há líderes que conseguem inspirar confiança, delegar funções e sustentar a visão de futuro, a cooperativa tende a ser mais resiliente diante das crises.

A dimensão da saúde mental é um fator crítico nesse processo. A pressão para manter resultados em ambientes complexos, como o agronegócio, amplia os riscos de estresse ocupacional e depressão entre produtores rurais. Estudos recentes mostram que a sobrecarga decisória, especialmente em contextos de risco financeiro e climático, está entre os principais estressores ocupacionais no campo (Sanne et al., 2004; Fraser et al., 2005; Brew et al., 2016). Líderes com baixa capacidade de gestão de pessoas tendem a acentuar esse problema, já que a ausência de comunicação clara e de suporte social reduz a percepção de segurança psicológica dos trabalhadores. Em contrapartida, quando a liderança eleva seu “teto”, oferecendo espaços de diálogo e promovendo suporte mútuo, há menor incidência de adoecimento psíquico (Truchot, 2020).

Exemplo disso pode ser encontrado em iniciativas de cooperativas gaúchas que, segundo reportagem da Folha de S.Paulo (2021), implementaram programas de apoio emocional para agricultores durante a pandemia de COVID-19. Esses programas foram coordenados por lideranças locais que compreenderam a importância de cuidar não apenas da produtividade, mas também do bem-estar psicológico dos associados. O resultado foi a redução de conflitos internos e a manutenção da coesão organizacional mesmo em cenários de forte instabilidade.

A lei do limite, portanto, não se aplica apenas às grandes corporações globais, mas também ao cotidiano de pequenas comunidades rurais. Ao definir até onde um grupo pode chegar, a liderança se torna um fator de saúde organizacional. Ignorar essa dimensão significa condenar boas ideias a fracassos parciais, enquanto investir no desenvolvimento da liderança abre espaço para que pessoas e organizações alcancem níveis mais elevados de eficácia e sustentabilidade.

Referências

  • Brew, B., Inder, K., Allen, J., Thomas, M., & Kelly, B. (2016). The health and wellbeing of Australian farmers: A longitudinal cohort study. BMC Public Health, 16, 988. https://doi.org/10.1186/s12889-016-3664-y
  • Folha de S.Paulo. (2021, 15 de agosto). Cooperativas rurais do RS criam programas de apoio emocional durante pandemia. Folha de S.Paulo.
  • Fraser, C. E., Smith, K. B., Judd, F., Humphreys, J. S., Fragar, L. J., & Henderson, A. (2005). Farming and mental health problems and mental illness. International Journal of Social Psychiatry, 51(4), 340–349. https://doi.org/10.1177/0020764005060844
  • Maxwell, J. C. (2007). As 21 irrefutáveis leis da liderança: uma receita comprovada para desenvolver o líder que existe em você. Thomas Nelson Brasil.
  • OCB – Organização das Cooperativas Brasileiras. (2022). Relatório anual do cooperativismo brasileiro. Brasília: OCB.
  • Sanne, B., Mykletun, A., Moen, B. E., Dahl, A. A., & Tell, G. S. (2004). Farmers are at risk for anxiety and depression: The Hordaland Health Study. Occupational Medicine, 54(2), 92–100. https://doi.org/10.1093/occmed/kqh007
  • Truchot, D. (2020). Occupational stress and burnout: a social identity perspective. Springer. https://doi.org/10.1007/978-3-030-22507-0

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