De Madre Teresa a líderes rurais, a verdadeira liderança se mede pela capacidade de influenciar pessoas, não pelo poder formal
Por: Kennedy Gomes de Alecrim / Redação
A segunda lei apresentada por John C. Maxwell em As 21 irrefutáveis leis da liderança (2007) afirma que a verdadeira medida da liderança é a influência. Nada mais, nada menos. Esse princípio confronta a crença comum de que cargos, títulos ou conhecimento garantem liderança. Para Maxwell, a liderança não é concedida, mas conquistada pela capacidade de impactar e mover pessoas em direção a um propósito.

O caso de Madre Teresa ilustra essa concepção. Frágil fisicamente, mas determinada em sua missão, ela construiu uma rede global de atuação humanitária que se tornou referência no cuidado aos mais pobres. Sua força não vinha de uma posição de poder, mas da influência conquistada pela coerência entre discurso e prática. Quando discursou em 1994 no National Prayer Breakfast, em Washington, provocou desconforto até mesmo em figuras políticas centrais, como Bill e Hillary Clinton. Ainda assim, todos a ouviram em silêncio respeitoso, conscientes da autoridade moral que ela representava (Maxwell, 2007).
Na prática organizacional, essa lei é testada diariamente. Reportagem do Valor Econômico (2022) mostrou como líderes de startups brasileiras perderam credibilidade diante de suas equipes quando, mesmo mantendo cargos de direção, não conseguiram sustentar confiança após crises financeiras. A influência, e não o organograma, determinou quem efetivamente conduziu os processos de recuperação.
O mesmo se observa no campo. Pesquisas internacionais apontam que agricultores com maior capacidade de influenciar seus pares tendem a ser mais eficazes na condução de iniciativas coletivas. Tamako (2022), em estudo realizado com agricultores familiares, identificou que líderes de opinião exercem influência significativa sobre a qualidade do conhecimento e a adoção de práticas agrícolas inovadoras. Wu, Cheng e Yang (2022), ao analisarem agricultores na China, mostraram que a decisão de contratar seguros agrícolas é fortemente impactada pelo comportamento dos vizinhos, reforçando a importância da influência social em decisões coletivas. Da mesma forma, Willy (2013), estudando agricultores de pequena escala no Quênia, demonstrou que a influência entre pares fortalece o engajamento em ações de conservação ambiental. Esses exemplos evidenciam que a influência pessoal, mais do que regras formais, é determinante para o sucesso de programas comunitários rurais.
Essa dimensão é crítica quando se trata de saúde mental no meio rural. A Organização Mundial da Saúde (WHO, 2020) enfatiza que líderes locais exercem papel central no estímulo ao autocuidado e na redução do estigma em torno da depressão. Em cooperativas brasileiras, iniciativas relatadas pela Folha de S.Paulo (2021) mostraram que produtores respeitados em suas comunidades funcionaram como “porta-vozes de confiança”, convencendo colegas a participar de programas de apoio psicológico durante a pandemia. Sem sua influência, tais programas provavelmente teriam sido rejeitados.
Do ponto de vista ocupacional, a ausência de influência autêntica aumenta a vulnerabilidade ao estresse. Líderes que dependem apenas de cargos formais geram insegurança entre trabalhadores, intensificando sintomas de ansiedade e desconexão organizacional. Por outro lado, quando a liderança se apoia na confiança mútua, cria-se uma rede de suporte que atua como fator de proteção contra a depressão ocupacional (Truchot, 2020). Isso demonstra que a influência não é apenas um recurso estratégico, mas também um elemento essencial de saúde no trabalho.
A lei da influência, portanto, reforça que a liderança genuína não pode ser delegada nem imposta. Ela nasce da capacidade de conquistar credibilidade, inspirar respeito e mobilizar pessoas em direção a objetivos comuns. Nas empresas, nas comunidades ou no campo, líderes são reconhecidos não pelo que dizem ser, mas pelo impacto real que exercem na vida dos outros.
Referências
- Fraser, C. E., Smith, K. B., Judd, F., Humphreys, J. S., Fragar, L. J., & Henderson, A. (2005). Farming and mental health problems and mental illness. International Journal of Social Psychiatry, 51(4), 340–349. https://doi.org/10.1177/0020764005060844
- Maxwell, J. C. (2007). As 21 irrefutáveis leis da liderança: uma receita comprovada para desenvolver o líder que existe em você. Thomas Nelson Brasil.
- Tamako, A. (2022). Identifying opinion leaders among smallholder farmers: A social network analysis. Systems, 10(1), 8. https://doi.org/10.3390/systems10010008
- Truchot, D. (2020). Occupational stress and burnout: a social identity perspective. Springer. https://doi.org/10.1007/978-3-030-22507-0
- Valor Econômico. (2022, 18 de setembro). Fundadores perdem espaço em startups após sucessivas crises. Valor Econômico.
- Folha de S.Paulo. (2021, 15 de agosto). Cooperativas rurais do RS criam programas de apoio emocional durante pandemia. Folha de S.Paulo.
- Willy, D. K. (2013). Influence of social relations on collective action in sustainable land management: A case of smallholder farmers in the Lake Naivasha Basin, Kenya. Doctoral dissertation, Wageningen University.
- Wu, L., Cheng, J., & Yang, X. (2022). Peer effects in farmers’ demand for agricultural insurance. Sustainability, 14(19), 11922. https://doi.org/10.3390/su141911922
- World Health Organization (WHO). (2020). Mental health and psychosocial considerations during the COVID-19 outbreak. Geneva: WHO.