Planejar o caminho, prever riscos e inspirar confiança são atributos que diferenciam líderes capazes de conduzir pessoas em mares turbulentos

Por: Kennedy Gomes de Alecrim / Redação

A quarta lei de John C. Maxwell em As 21 irrefutáveis leis da liderança (2007) afirma que qualquer pessoa pode dirigir o barco, mas somente o líder é capaz de traçar a rota. Essa metáfora traduz a ideia de que a liderança não se resume à execução, mas envolve visão estratégica, capacidade de antecipar desafios e de inspirar os demais a seguirem em direção a um destino comum.

Maxwell utiliza a expedição de Meriwether Lewis e William Clark, no início do século XIX, como exemplo histórico. A missão de explorar o oeste dos Estados Unidos exigiu não apenas coragem, mas planejamento meticuloso. Mapas inexistentes, terrenos inóspitos e incertezas climáticas tornaram a expedição um risco enorme. Foi a habilidade de navegar diante do desconhecido, estabelecendo etapas, prevendo obstáculos e mantendo o moral do grupo, que possibilitou o sucesso da jornada (Maxwell, 2007).

No ambiente corporativo, a ausência dessa lei pode ser fatal. Reportagem da Exame (2019) mostrou que mais de 60% das startups brasileiras fecham as portas em até cinco anos por falhas de planejamento estratégico. Muitas possuem boas ideias e executores eficientes, mas falham em desenhar rotas sustentáveis, deixando equipes à deriva diante de crises de financiamento e mudanças de mercado. Nesse sentido, a lei da navegação não é uma abstração: ela impacta diretamente a sobrevivência e longevidade das organizações.

No meio rural, a analogia da navegação se torna ainda mais clara. Agricultores estão constantemente sujeitos a intempéries climáticas, oscilações de preços e riscos sanitários. Líderes de cooperativas que apenas “dirigem o barco” sem visão de longo prazo acabam presos a decisões reativas. Já aqueles que aplicam a lei da navegação conseguem planejar safras, diversificar culturas e preparar estratégias de mitigação de riscos. Um exemplo foi a atuação de cooperativas paranaenses durante a crise hídrica de 2021. Segundo reportagem do Globo Rural (2021), lideranças que previram os impactos e articularam planos emergenciais reduziram perdas financeiras e garantiram insumos para a continuidade da produção.

Essa lei também se conecta de forma direta à saúde mental no campo. A ausência de planejamento aumenta a percepção de incerteza, fator reconhecido como um dos principais estressores ocupacionais entre produtores rurais (Sanne et al., 2004). Agricultores que não sabem o que esperar da próxima safra ou como lidar com a oscilação de preços experimentam maior ansiedade e sentimentos de impotência. Por outro lado, líderes que compartilham rotas claras transmitem segurança, o que funciona como fator de proteção psicológica. Programas de suporte social e treinamento em gestão de riscos, quando conduzidos por lideranças confiáveis, reduzem a probabilidade de depressão ocupacional (Brew et al., 2016).

A lei da navegação reforça que liderança é mais do que ação imediata: é a arte de prever, preparar e inspirar. Assim como navegadores de expedições históricas, líderes contemporâneos no campo ou nas empresas só conduzem suas equipes com sucesso quando são capazes de enxergar além da tempestade e mostrar o caminho mesmo quando o horizonte ainda parece obscuro.

Referências

  • Brew, B., Inder, K., Allen, J., Thomas, M., & Kelly, B. (2016). The health and wellbeing of Australian farmers: A longitudinal cohort study. BMC Public Health, 16, 988. https://doi.org/10.1186/s12889-016-3664-y
  • Exame. (2019, 24 de maio). Por que 60% das startups fecham em até 5 anos no Brasil. Exame.
  • Globo Rural. (2021, 12 de setembro). Crise hídrica leva cooperativas a traçar planos emergenciais para agricultores. Globo Rural.
  • Maxwell, J. C. (2007). As 21 irrefutáveis leis da liderança: uma receita comprovada para desenvolver o líder que existe em você. Thomas Nelson Brasil.
  • Sanne, B., Mykletun, A., Moen, B. E., Dahl, A. A., & Tell, G. S. (2004). Farmers are at risk for anxiety and depression: The Hordaland Health Study. Occupational Medicine, 54(2), 92–100. https://doi.org/10.1093/occmed/kqh007

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